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quarta-feira, 20 de maio de 2026

O Brasil que Late e Agride - A Normalização da Barbárie como Projeto


Por Josessandro Andrade || Poeta, Compositor e Educador 

Nos últimos anos, o Brasil parece ter se tornado um palco de reprises de um período que muitos acreditavam estar superado, ou ao menos, sob controle.  A reportagem do Fantástico, da Rede Globo, repercutiu o que já vinha sendo divulgado nas redes sociais: Relatos de trabalhadoras torturadas por patrões com auxílio policial, agressões físicas em lanchonetes por funcionárias de organismos internacionais e ataques xenofóbicos ou homofóbicos em bares e salões de beleza não são episódios isolados. Eles são os sintomas de uma patologia social profunda, exacerbada por uma retórica política que validou o desprezo pelo "outro".

A violência estrutural, termo que descreve como as estruturas sociais (econômicas, políticas e legais) agridem indivíduos de forma sistemática, ganhou um novo combustível no Brasil recente: a influência do bolsonarismo. Mais do que um movimento eleitoral, o bolsonarismo consolidou-se como um estilo de vida baseado na hierarquização da humanidade.Quando um artista se sente no direito de usar o termo "Paraíba" como insulto ao ser contrariado, ou quando uma cliente tenta esfaquear um cabeleireiro por um descontentamento estético acompanhado de homofobia, o que vemos é a exteriorização de um pacto de superioridade. Esse pacto sugere que certas pessoas — os "cidadãos de bem" — possuem um salvo-conduto para humilhar quem eles consideram subordinado por classe, origem geográfica, orientação sexual ou ocupação profissional.

O bolsonarismo não criou o racismo, a xenofobia ou o classismo brasileiro, mas retirou a mordaça desses preconceitos. Ao longo de quatro anos de um governo que utilizava o púlpito da República para atacar minorias e exaltar a força bruta, a etiqueta social da convivência democrática foi substituída pela estética da agressão. A mensagem enviada ao topo da pirâmide social foi clara: "Você pode, o Estado te protege".

O caso da funcionária da ONU que agride uma trabalhadora de lanchonete exigindo desculpas é emblemático. Ele revela que nem mesmo os discursos de direitos humanos globais são imunes à arrogância de classe brasileira, quando esta se sente autorizada pelo clima político de "quem manda aqui sou eu". A tortura de uma funcionária por uma patroa, com a conivência de um policial, é o ápice desse retrocesso — é o retorno ao Brasil colonial, onde o corpo do trabalhador é propriedade e a lei serve apenas para punir o vulnerável.Não se trata apenas de má educação ou temperamento explosivo. É uma estratégia de dominação. 

Ao ridicularizar o politicamente correto, o bolsonarismo transformou o respeito em fraqueza e o preconceito em "liberdade de expressão". O resultado é uma sociedade onde o conflito trivial vira tentativa de homicídio e onde o balcão de um bar vira trincheira ideológica.

Para reconstruir o tecido social brasileiro, não basta apenas trocar o governo. É preciso enfrentar a herança de uma mentalidade que se sente confortável na agressão.

O combate à violência estrutural passa, necessariamente, pela responsabilização rigorosa desses atos e pela desconstrução da ideia de que o poder financeiro ou o alinhamento político dão a alguém o direito de desumanizar o próximo. 

O Brasil precisa decidir se quer ser uma nação de cidadãos ou um conjunto de feudos onde quem grita mais alto — ou quem tem a arma — dita as regras.

Refletindo sobre isto, encontrei inspiração pra escrever o Poema que segue , que me vem como conclusão e síntese  destas digressões:


Violência estrutural 


O chicote que estala no porão,
Com a farda apoiando o capricho, 
Faz da vida de quem ganha o pão .
Um descarte jogado no lixo.

A soberba que agride no lanche,
Exigindo um perdão de joelhos,
Faz com que a sociedade manche
 Ao deixar na pele rastros vermelhos 

Numa falsa acusação letal
A tortura na gravidez duma  preta
É um tronco da senzala atual 
Que faz da cozinha seu planeta 

A tesoura que vira um punhal,
Entre insultos ao que é diferente,
Mostra o ódio de um tempo atual
Que adoece o espírito da gente.

O artista que cospe o veneno,
Chamando o outro de "Paraíba",
Se achar grande oprimindo o pequeno,
Só revela a miudice deste escriba. 

É a herança de um tom truculento,
Onde o "bem" se faz pela agressão,
Um projeto de ódio e tormento 
Que feriu o civismo da nação.
 
É a doença do apodrecimento 
Que autoriza e atrai como ima,
A violência de arma e xingamento
Pelo exemplo que foi dado lá de cima. 


Josessandro Andrade 

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