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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O Elo Invisível entre o Moxotó e o Ipanema: Por que precisamos de uma Consciência Regional?


Por Josessandro Andrade || Artista da Palavra

Por décadas, as divisões de mapas e as burocracias estaduais tentaram fatiar o sertão pernambucano em gavetas administrativas. Ora somos "Moxotó", ora somos "Ipanema", ora somos "Itaparica". No entanto, para quem pisa o chão de Arcoverde, Buíque ou Sertânia, as fronteiras dos rios nunca foram muros, mas sim pontes. A recente nomenclatura oficial de "Sertão do Moxotó Ipanema" não é apenas um capricho de gestão; é o reconhecimento tardio de uma identidade que pulsa há milênios.

A necessidade de dar a conhecer essa união à nossa população é urgente. Não se trata apenas de nomes em placas de repartições públicas, mas de entender que os vales do Moxotó e do Ipanema formam uma "comunidade de destino". Historicamente, fomos forjados pelo couro. Enquanto o litoral enriquecia com o açúcar, o nosso interior era desbravado pelo gado que subia as bacias desses rios, criando a figura mítica do vaqueiro e as feiras que deram origem a cidades como Pedra e Sertânia.

Geograficamente, compartilhamos o mesmo semiárido desafiador, a mesma Caatinga que exige resiliência e a mesma bacia leiteira que hoje sustenta milhares de famílias.

Mais do que isso, nossa conexão é ancestral. Os sítios arqueológicos do Vale do Catimbau e as pinturas rupestres espalhadas pelas rochas de Arcoverde e Venturosa provam que, muito antes de Pernambuco existir, os povos originários já tratavam essa região como um território único. Eles desenhavam os mesmos animais e rituais, movendo-se livremente entre um vale e outro, ignorando as linhas que hoje desenhamos nos mapas. Pantaleão de Siqueira, colonizador principal da região, adquiriu léguas e mais léguas de terras, fundando fazendas nos territórios, que hoje são os municípios de Sertânia, Águas Belas, Buíque, Custódia e Inajá. Sendo Jeritacó (que foi de Sertânia, hoje pertence a Ibmirim), a sua fazenda sede.. O seu filho Manuel José de Siqueira é o fundador de Pesqueira, e O seu genro, Manuel Alves de Oliveira Melo é um dos nomes de destaque na fundação e colonização de Custódia.  

Do Ponto de vista dos potenciais econômicos o queijo da Pedra, os santeiros de Ibmirim, a renascença de Pesqueira , o doce de Custódia, as esculturas alongadas de Sertânia  mostram uma vocação natural da gente desta região para o trabalho artesanal. Herança talvez da formação do seu povo, das inúmeras nações indígenas (Fulniôs, Xucurus, Kapinawa, entre outros) e dos Quilombos da Serra das Torradas em Buíque e de outras localidades.  Talento que também se espalha no Samba de Coco, (Arcoverde e Tupanatinga), na música de Paulo Diniz, o artista de Pesqueira, que musicou "José" , dando popularidade nacional a Carlos Durmonnd de Andrade, e de João Silva, o compositor Arcoverdense que reeinseriu Luiz Gonzaga nas paradas de sucesso, nos anos 80, as Letras e Artes de uma região sertaneja, que vai dá Literatura do sertaniense Marcelino Freire, até a Poesia de Audalio Alves (Pesqueira), Cyl Galindo (Buíque), Lourinaldo Vitorino (Venturosa,) e Zé Castor (Alagoinha), afora muitos outros. 

Por que, então, a população precisa saber disso? Primeiro, pela autoestima cultural. Entender que fazemos parte de um polo histórico e arqueológico de importância mundial (como o Catimbau) muda a forma como o cidadão enxerga sua própria terra. Segundo, pela força política. Quando as cidades do Moxotó e do Ipanema se reconhecem como irmãs, elas deixam de competir migalhas e passam a exigir investimentos em bloco — seja na saúde regionalizada em Arcoverde ou na infraestrutura hídrica que beneficia ambos os vales.

A união entre o Moxotó e o Ipanema é orgânica, biológica e histórica. Defender esse conhecimento é defender a nossa própria história. Precisamos que as escolas, a mídia local e os governos falem menos de "microrregiões isoladas" e mais dessa "grande pátria sertaneja" que nos une. Afinal, o gado que bebe a água de um rio é o mesmo que pastoreia nas margens do outro, e o povo que ali vive é, em essência, um só. 

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