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quinta-feira, 16 de abril de 2026

A Noite do Candeeiro - O Clarão de uma Luz contra a Treva do Esquecimento


Por Josessandro Andrade || Artista da Palavra

Quem chega a Arcoverde na última quinta-feira do mês, se deixar o passo guiar pelo som de uma sanfona que chora e ri ao mesmo tempo, finda por desembocar no portal de um reino rústico. Ali, na Budega da Poesia, o tempo não corre; ele se ajoelha. É a Noite do Candeeiro, um desses fenômenos que provam que o Sertão do Moxotó-Ipanema não é apenas terra de sede, mas um vale fértil onde a alma do povo transborda em rima.

A liturgia é simples e, por isso mesmo, sagrada. Apagam-se as luzes da modernidade fria para que a chama vacilante do candeeiro recupere o seu trono. Naquela penumbra, o que se vê não é o rosto do poeta, mas a sua voz. É um ambiente onde o lirismo sentimental — essa mistura de saudade, boemia e solidão — se entrelaça aos costumes do chão rachado e às dores das questões sociais, num nó que ninguém ousa desatar.

Vi com meus próprios olhos, como testemunha ocular da beleza, o magnetismo que emana de figuras como Fernando da Budega, Diosman Avelino e Mané Sertão. Vi a herança de Ulysses Lins e do maestro Francisquinho reviver no sangue de Túlio Lins Araújo. Sob o comando dos foles de Inácio Martins e Pablo Sotero, os versos de Elvis Lira e François Cevert ganham uma musculatura que só o Sertão sabe dar.

Engana-se quem pensa, do alto de sua empáfia urbana, que a poesia é artigo de museu ou coisa de poucos. A lotação transborda a calçada, ganha o meio da rua, e o que se vê é uma juventude de celular em punho, não para se alienar, mas para capturar o eterno. É a prova cabal de que o povo tem fome de si mesmo.

Entre um gole de carraspana — a cachaça artesanal que desce queimando as impurezas da alma — e um pedaço de tripa de bode, a gastronomia se transmuta em delírio poético. A fumaça que sobe dos candeeiros parece embriagar a plateia, criando uma névoa onde o real e o onírico se abraçam.

A Noite do Candeeiro é um grito nativista. É a afirmação de que, enquanto houver um mote lançado e uma sanfona aberta, o Sertão será invencível. Quem nunca foi, não conhece o Brasil profundo; quem já foi, como eu, carrega no peito o cheiro do querosene e o gosto da rima que, por uma noite, fez o mundo ser inteiro outra vez.

Um comentário:

  1. Belíssimo texto, muito obrigado, bom saber que estamos atingindo nosso objetivo, espalhar poesia pelo mundo. François Cevert

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